Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

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Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

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PESSOAS INESQUECÍVEIS - CERES E MARLENE




Ceres é a irmã do meu primeiro namorado. Única garota no meio de um montão de homens: 5 irmãos, 1 primo e 1 irmão de criação, fora os agregados que de vez em quando moravam no casarão de Santa Teresa. Era uma farra só aquela casa, eu preferia ir para lá porque estava sempre cheia de jovens. Me sentia muito feliz mesmo que os rapazes não conversassem comigo. Depois é que eu fui saber que eles eram praticamente proibidos de serem meus amigos. Esse meu ex-namorado era extremamente ciumento e não livrava a cara nem dos irmãos. Depois que o namoro terminou é que eles passaram a falar comigo.. A exceção era a Ceres que eu sempre adorei. Ela não me levava muito a sério porque eu sou 5 anos mais nova e, naquela época, era muito boba, mas, ainda assim, ela também gostava muito de mim.

Esse meu namoro durou dos 15 aos 18 anos, mas no último ano eu já não gostava mais dele. Mesmo assim, eu não tinha coragem de terminar porque eu não podia imaginar a minha vida sem a convivência daquela família. Até que as coisas começaram a ficar perigosas para mim pois o ciúme doentio do meu ex-namorado descambou para uma postura mais agressiva que culminou na violência física, não comigo, mas com os outros. Uma vez ele sozinho deu uma surra em 4 rapazes dentro do ônibus porque um deles ousou dizer a frase "Eu vou comer aquela piranha" na minha presença. Eu não podia olhar para ninguém. Quando eu percebi que um dia quem iria apanhar era eu, resolvi acabar com o namoro. Foi horrível pois não podia sair de casa, ele ficava me perseguindo, chorando, pedindo para reatar o namoro. Só saía com a minha mãe que ele respeitava muito. Até que uma quase desgraça aconteceu: ele tentou o suicídio tomando barbitúricos(não muitos, é claro). Quando ainda estava no hospital ligou para mim pedindo para ir visitá-lo. Diante daquela situação, eu disse que sim, mas a família dele simplesmente não deixou. Eles perceberam que ele usou um último recurso para me dobrar e não permitiram a chantagem emocional comigo. Pediram para eu não permitir nenhum contato.

Eu tive perdas e ganhos com relação a essa história. A perda é que eu quase entrei em um processo depressivo pois me sentia extremamente culpada por ter causado esse mal. Não saía de casa, não queria saber de absolutamente nada, só chorava. O grande ganho é que por causa desse meu estado de espírito, minha família arrumou rapidamente um serviço para mim e eu comecei a trabalhar dois meses após esse episódio. Se eu tivesse demorado alguns poucos meses mais, não teria conseguido me aposentar aos 43 anos, com 25 anos de previdência.

Após quase um ano afastada da família desse namorado, aos poucos eu fui me reaproximando e a amizade que era maravilhosa ficou melhor ainda, pois foi uma dura prova para mim e para eles também. Quanto ao rapaz, ele definitivamente me deixou de lado e começou a namorar outras pessoas, mas eu sabia que ele ainda gostava de mim. Por causa disso, nas raras vezes que nos encontrávamos eu fazia de tudo para não provocar nenhuma situação constrangedora. Foram poucas vezes, mas muito tensas para mim.

Minha amizade com Ceres ficou para sempre consolidada. Eu achava ela o máximo, era muito culta, extremamente estudiosa. Se formou em Psicologia e fez uma brilhante carreira com mestrado na UFRJ e doutorado na Inglaterra. Hoje em dia ela é vice-reitora de uma universidade federal em outro estado e de vez em quando escreve alguns artigos para jornais de grande porte. Convém dar uma explicação: o nome dessa pessoa inesquecível não é Ceres, mas devido à história do suicídio deixarei de dar detalhes que possam identificá-la. Eu achava a Ceres o máximo dos máximos pela brilhante trajetória dela e por ser minha amiga íntima também.

Por causa dessa confusão toda, eu fiquei um ano sem estudar depois que eu terminei o segundo grau. Quando quis recuperar o tempo perdido, fiquei com medo de tentar o vestibular pois estava começando a esquecer as matérias. Logo, entrei para um cursinho. Porém aconteceram fatos desagradáveis na minha vida: em março de 1973 meu pai enviou a última mesada para a minha mãe e ao mesmo tempo, morreu o meu avô que era a única pessoa com que poderíamos contar para nos dar um auxílio financeiro. Eu, menininha criada com tudo de bom e do melhor, que tinha as roupas da moda, a vida boa de quem nasceu em berço de ouro, tive que passar a sustentar a minha família com apenas 19 aninhos. Meu irmão só tinha 17 e ninguém queria dar emprego para ele por causa do exército. Fomos obrigados a alugar um quarto e o meu irmão passou a dormir na sala. Nesse meio tempo, saí do Unibanco com horário integral e fui trabalhar no Movimento de Educação de Base ganhando pouca coisa a menos pelo período de 6 horas, perto da minha casa. Foi a minha sorte.

Minha vida passou a ser o seguinte: trabalhava de segunda a sexta das 12 às 18 hs. Às 3as e 5as pela manhã, eu estudava na Aliança Francesa, às 2as., 4as e 6as eu dava aulas particulares ganhando muito pouco. De noite, eu estudava das 18.30 às 22.30 hs. Sábado de tarde eu estudava e de manhã dava aula de Francês para um garoto rico que estudava no Santo Inácio e morava na Av. Atlântica. O dinheiro que eu ganhava com essa aula era o único que ficava para mim. O resto era tudo para casa.

Aonde entra a Ceres nisso tudo? Ela pagou integralmente o meu cursinho e comprou para mim todas as apostilas que eu iria precisar durante todo aquele ano. Não satisfeita, comprava fazendas para minha mãe fazer roupas para ela e para mim também. Arrumou um trabalho temporário para o meu irmão, sem carteira assinada e sempre dava um jeitinho de irmos ao teatro, balé e qualquer programa cultural interessante que tivesse na cidade. Até o Royal Ballet eu vi. Como eu fiquei muito traumatizada com o episódio do suicídio, fiquei o ano de 1973 sem namorar ninguém, então saíamos eu, ela e o namorado. O que ela podia fazer por mim, ela fez.

Ceres foi uma das pessoas mais importantes da minha vida, foi uma dádiva de Deus. Ela é atéia, não acredita em absolutamente nada que não possa ser visto ou tocado, mas nunca vi uma pessoa levar tão ao pé da letra os ensinamentos de qualquer boa religião. Eu sempre fui uma pessoa de muita sorte pois as poucas vezes que caí, fiquei de pé com apenas leves escoriações. Sempre tive anjos ao meu lado me protegendo e dando todo apoio necessário. Essas pessoas me ensinaram a ser generosas e eu também tenho sido, na medida do possível, anjo para outras pessoas, inclusive para a própria Ceres em um outro momento em que a situação se inverteu.

Não posso esquecer também da minha querida chefe da entidade onde trabalhava, D. Marlene, uma coroa linda, parecidíssima com a Lolita Rodrigues, pintada, arrumada e que sempre dava um jeitinho de me agradar. Quase sempre me pedia para ir a um bar próximo para comprar lanche para ela e para mim também, mas eu duvido que ela comesse o lanche porque ela tinha uma preocupação excessiva com dieta. Tenho quase certeza que o que eu comprava para ela era dado para outra pessoa. A razão dela me solicitar esse favor é porque eu almoçava às 11.30 e só ia jantar às 23.30. De tarde, eu só comia um pão francês com margarina que eu trazia de casa pois o nosso dinheiro não dava para grandes coisas.

. Felizmente essa situação durou pouco tempo, no ano seguinte fui promovida e o meu salário triplicou. Meu irmão, ao fazer 18 anos, resolveu a sua situação com o exército e conseguiu um bom emprego com carteira assinada. Ainda assim, continuamos com o quarto alugado porque ficamos muito amigos das duas meninas que só saíram lá de casa porque progrediram na vida também e cada uma teve condições de alugar um apartamento. Meu pai nunca mais mandou dinheiro mesmo, minha mãe já não tinha mais idade e nem condições psíquicas de trabalhar. Nunca a deixei abandonada, mesmo casada continuei dando auxílio financeiro junto com o meu irmão. Essa situação só terminou no mês de janeiro de 2003 quando meu irmão e eu finalmente acabamos de pagar as indenizações trabalhistas das duas acompanhantes que tomaram conta da minha mãe até a sua morte.

Não gosto muito de precisar sofrer para aprender alguma coisa na vida, eu sou uma pessoa que tem um compromisso enorme com a felicidade, detesto sofrimento e descarto toda e qualquer possibilidade de arrumar problemas desnecessários para mim, mas 1973 foi um ano emocionalmente cortado da minha existência. Me lembro bem dessas pessoas e fatos marcantes, mas, por mais que me esforce, não me recordo do meu dia a dia, é tudo meio confuso na minha cabeça. Uma mocinha que de repente assume um grande compromisso, sem namorar, sem poder fazer uma farra, sem ir à praia porque tinha que trabalhar muito e nas horas vagas precisava estudar com afinco para poder se dar bem no vestibular e, além de tudo isso, sem dinheiro para nada, é muita coisa para quem foi criada como uma princesa. No entanto, nunca fiquei revoltada e aceitei com humildade o carinho dessas pessoas amigas. Perdi o contato com a D. Marlene pois o tempo se encarregou de acabar com a nossa amizade. Com o ex-namorado não foi possível continuar sendo amiga pois o término do namoro foi muito traumático. Já com a sua família, até hoje nos falamos. A Ceres me liga sempre no Natal e batemos um longo papo animado, aproveitei para falar com a minha ex-futura sogra e a primeira frase dela foi: "Como vai a minha norinha predileta?", como se tivéssemos nos encontrado na véspera. São essas pequenas coisas que a gente ganha na vida que nós faz acreditar que "tudo vale a pena, quando a alma não é pequena", como diria Fernando Pessoa. Amigos, mais uma vez agradeço a oportunidade de dividir com vocês mais uma outra fase da minha vida.

Beijocas

Yvonne