Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

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Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

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DANCING QUEEN

Amigos,

Alguns de vocês sabem que eu não danço porcaria nenhuma. Essa é uma das grandes frustrações da minha vida, mas em mil novecentos e antigamente eu tive o grande prazer de ter sido rainha por uma noite e foi em uma situação nada nobre, digamos assim. Venho de uma família cuja geração anterior viveu amparada em mentiras e mais mentiras. Só que uma pessoa que foi mais do que importante para mim - meu irmão - vivia disfarçando a sua preferência sexual. Eu não sabia como lidar com essa situação, visto que eu também era reprimida sexualmente falando, nasci em 1954.

Até que em um dia, eu soube que um determinado DJ tinha sido eleito como o melhor do Rio de Janeiro. Se não me falha a memória, o nome dele é Amandio. Só que a discoteca (Sótão) era localizada na Galeria Alasca, reduto de gays, de desesperados e da escória da humanidade (licença nada poética minha). Essa era a opinião da sociedade. Eu pensei cá com os meus botões que com certeza o meu irmão conhecia o local e eu pedi para ele que me levasse lá. Ele me perguntou se eu estava certa do que eu queria e eu respondi que sim. Pedi que ele convidasse o maior número possível de amigos, para que pudéssemos curtir uma noite maravilhosa em grande estilo. Naquela época eu não estava namorando ninguém e foi o que ele fez.

Lá chegando, dancei tudo que tinha direito, com coreografias bem eróticas com os amigos dele que com certeza não iriam querer nada comigo, mas estavam fazendo o possível e o impossível para dizer para mim que eles estavam gostando da minha presença e que iriam fazer de tudo para que eu aceitasse o mundo e a vida do meu irmão. Fui uma DANCING QUEEN cheia de Travoltas ao meu lado.

Eu e meu irmão voltamos para casa sem dizer uma só palavra a respeito do ocorrido (eu respeitei a vontade dele), mas ele soube naquele momento que eu dei o meu OK. Vejam bem, ele não precisava e nem precisa da minha concordância porque a vida é dele e eu não tenho nada o que opinar, mas foi bem mais confortável para ele saber que a sua irmã era uma grande amiga com quem ele poderia contar. Como eu estava acostumada a viver em ambientes de mentira, eu continuei com o meu papel de sempre, até que conheci o meu marido que tem como característica maior jogar merda no ventilador, doa a quem doer. E ele deu nome aos bois. Foi um rebuliço total para mim, mas para o meu querido irmão foi um alívio porque ele finalmente encontrou um porto seguro. Parece até novela da Globo, mas para quem foi alijado pela sociedade e teve uma família super/hiper repressora, foi uma maravilha.

Hoje em dia meu irmão se tornou um ser assexuado por causa da AIDS e por ter perdido todos os seus amigos. Só restou um daquela época e ele foi gente o suficiente para dar assistência a um monte deles com os quais nunca teve relacionamento afetivo ou sexual. Eu não sei se conseguiria cuidar de vários "alguéns" com feridas, vômitos, diarréias ou alguma coisa do tipo, mas meu irmão foi nobre o suficiente para lidar com essa situação. Queridos, ele e eu perdemos mais de vinte amigos, todos dizimados por essa terrível doença.

Foram sonhos interrompidos, desejos não realizados, um monte de histórias que ficaram no ar e meu adorado irmão até o dia de hoje não sabe lidar com esse problema. Ele era um gato e agora é um senhor de 51 anos gordinho, sem alguém para amar e jurar para os seus amigos que pode até se matar caso seja abandonado. Ele é um sobrevivente de guerra e o fato de saber que se saiu um vencedor por ter boa saúde não traz nenhuma felicidade para ele. Foram muitos amigos do peito que morreram. Quem é que consegue passar por um dramalhão desse e sair incólume?

E ainda tem gente que acha que gay tem mais é que morrer ou sofrer o pão que o diabo amassou. É talvez eles estejam certos, afinal de contas tudo que é diferente é incomodo, mas vai chegar um dia que algumas pessoas poderão ser discriminadas por gostarem do Tom e Jerry ou de comer ovo frito com geléia de morango. Eu como ovo frito com pão. Será que eu sou melhor do que você?

Beijocas

Yvonne