Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

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Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

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ADOÇÃO - O FILHO DO MEU CORAÇÃO




Queridos amigos, (cliquem na foto para aumentá-la)

Fui convidada pela linda Georgia Aegerter para participar de uma blogagem coletiva a respeito de adoção.
Como não tinha nada a acrescentar, em um primeiro momento falei que não iria escrever nada. Convém esclarecer que não gosto nem um pouco de blogagens coletivas. Só que pensei melhor e optei por escrever a minha experiência que nada tem a ver com adoção e sim com o fato de ter um filho que não saiu da minha barriga: um enteado.

Esse filho é o Felipe. Quando eu o conheci, ele tinha apenas três anos e meio. Gostei de cara, mas não por causa dele e sim por ser filho do homem que eu tinha acabado de escolher para me relacionar. Por uma feliz coincidência, estou escrevendo esse meu post no dia 16.10.2008, exatamente 26 anos depois de ter conhecido o Felipe. O primeiro dia não foi muito bom e ele chorou um tanto raivoso. Percebi que não era o momento adequado para iniciar uma amizade e eu, que fui passar o fim de semana com o então namorado, optei por retornar à minha casa no sábado de tarde. Nossa história de amor iria começar quando ele achasse que seria o momento ideal.

No final de semana seguinte, não houve mais problema e nós começamos a ter afinidade, mas ainda assim, ele não era "O" Felipe e sim o filho do namorado. Bom, o tempo passou, até que eu tirei férias no mês de janeiro de 1983 e o meu marido não conseguiu o mesmo período. Já estávamos morando juntos e eu fiquei o tempo todo com o Fê, enquanto ele trabalhava. Fizemos um monte de passeios, íamos à praia do Leme todos os dias (bairro que eu morava), brincava com ele demais. Até que as minhas férias acabaram e eu tive que retornar na quarta-feira de cinzas daquele ano. CARAMBA!!! Foi um dos momentos mais "dramáticos" da minha vida. Ele aos prantos, eu idem, tendo que nos separar como se ele fosse para a guerra e eu para um campo de extermínio. No sábado seguinte iríamos nos reencontrar, seriam apenas dois dias e meio de distância, mas ainda assim estávamos mal. A partir dessa quarta-feira, eu me dei conta de que não tinha mais um enteado e sim um filho.

Essa introdução foi apenas para situar vocês do nosso relacionamento. Tornamo-nos carne e unha. Ele passava todos os finais de semana conosco, inclusive Dia das Mães, Natal, Reveillon, Páscoa e qualquer outro feriadão que vocês puderem imaginar. Foi conosco que ele começou a fazer os seus primeiros deveres de casa do tipo "cole figuras ou desenhe palavras que comecem com o sonzinho de BA". Então, nunca podíamos jogar revistas fora. Normalmente esse exercício era feito nos fins de semana e a mãe deixava tudo a nosso cargo. Eu tinha verdadeira paixão por ele e nada se modificou, mesmo depois que fui mãe. Não vou dizer que eu o amo do mesmo jeito que amo a minha filha, porque seria mentira. Caso ele fosse um filho realmente adotivo que eu tivesse escolhido, tudo seria diferente, mas ele sempre teve mãe. Ainda assim, posso dizer sem sombra de dúvida que o amor que eu tenho por ele é quase o mesmo tanto que eu tenho pela minha filha. As provas de amor foram várias e sempre freqüentes. Uma vez o meu irmão disse para mim que estava duro demais e que iria comprar presente de Natal apenas para a Yasmin. Não me lembro qual era a moeda na época, mas ele disse que seria algo em torno de trinta reais. Eu disse para ele que se ele tinha apenas trinta reais, que comprasse um presente de quinze reais para a Yasmin e outro de idêntico valor para o Felipe. Jamais deixaria alguém chegar na minha festa de Natal sem presenteá-lo.

Em 1994, quando ele tinha 15 anos, passou por uma situação de um certo conflito. O marido da mãe dele foi convidado para ir para o sul do país a trabalho. Então ele deveria escolher com quem iria morar. Tanto o pai, como também a mãe decidiram que ele deveria optar com quem iria ficar e nenhum dos dois iria tentar seduzí-lo. Só que ninguém me chamou para fazer parte dessa combinação e eu, por debaixo dos panos, fiz exatamente tudo que eles decidiram não fazer. Fiz uma chantagem emocional tão elegante que ele acabou optando por morar conosco. Jamais iria deixar o meu neném ficar longe da gente. Além disso, meu marido não iria suportar ver o filho apenas nas férias escolares e feriadões. Ele poderia ficar deprimido, doença que ele já teve. Foi uma atitude tão certa de minha parte que, um ano e meio depois quando a mãe retornou ao Rio, ele ainda assim preferiu ficar conosco e só saiu de casa quando se casou.

Bom, contei um monte de histórias tatibitate, mas a minha grande prova de amor incondicional do tipo mãe pelo filho se deu no ano passado quando ele trouxe para as nossas vidas um monte de problemas que eu prefiro não entrar em detalhes, mas posso dizer que, algum dia, eu vou esquecer o ano de 2007, um dos três piores da minha existência. Ele, sem querer e por falta de experiência, nos deixou em uma situação simplesmente pavorosa. Tão ruim que o meu marido, o maior prejudicado, só falava com ele aos berros por telefone. Foi horrível, mas eu, mais uma vez por debaixo dos panos, tratei de solucionar tudo aos pouquinhos, até que quase um ano depois as armas foram arriadas.

Ele, em diversas oportunidades, já disse para mim que a mãe dele sou eu. É comigo que ele conta quando a situação aperta, não que o seu pai não lhe dê apoio, não é nada disso, mas é que o meu marido é rigoroso demais com os filhos e eu sempre acabei escondendo algumas coisas do tipo nota baixa em Física. Parentes e amigos íntimos ficaram chateados quando ele nos causou problemas. Não tiro a razão deles, mas fica aqui a pergunta que não quer calar: ele não é o meu filho? Então eu o defenderei até morrer.

Felizmente tudo está se ajeitando, nossa vida já está quase voltando ao normal. A dele ainda não, mas está chegando lá. Ele nos deu um presente mais do que lindo: o nosso netinho que só alegrias nos dá. Então, posso dizer que esse filho foi um presente que Deus me deu.

Prá terminar, gostaria de contar para vocês uma história que não tem nada a ver com a minha experiência de mãe adotiva. Conheci um senhor que foi técnico de waterpolo de um grande clube carioca. Seu pai, em mil novecentos e antigamente, conheceu uma mulher e foi morar com ela. Nunca se casaram e tiveram quase vinte filhos. O primeiro era dele com uma mulher que não sei direito qual é a história. Com menos de um ano morando com ela, um dia ele chegou em casa e disse para ela que aquele menino era filho dele e que ela deveria cuidar daquela criança como se fosse mãe. A mulher concordou. Depois disso, eles tiveram esse monte de filhos. Ele morreu e ela ainda durou alguns anos, até que também morreu. Eu fui ao enterro dela e tive a oportunidade de presenciar uma das mais dramáticas e belas cenas de toda a minha vida. Enquanto estava todo mundo estava mais ou menos tranqüilo com a morte daquela senhora com não sei quantos anos de vida, o único que fez um verdadeiro escândalo foi justamente o mais velho que não era filho dela. Ele enlouqueceu de dor e queria ser enterrado junto com a mãe. Filho é de quem mesmo?

Beijocas

Yvonne

P.S.: Como não sei colocar música em posts, sugiro a vocês que leiam este pensando na música Aquarela com o Toquinho. Essa foi uma as canções que fazem parte da trilha sonora do meu amor com o meu filhotinho.