Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

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Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

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O BAIANO

Amigos,

Já que o meu último post falou sobre um episódio ocorrido na Segunda Guerra Mundial, vou tomar a liberdade de continuar o assunto. Eu tenho especial interesse por essa época, visto que a minha família paterna é européia e sofreu muito nesse período. Meus bisavós tiveram que fugir para a Inglaterra, ele crioulão quase azul de tão preto e ela judia. Vovô que lutou na Primeira Guerra, se apresentou como voluntário na Resistência. Só que descobriram e ele teve que fugir para a Bélgica, visto que sua cabeça estava a prêmio. Meu pai ficou preso por um bom período e minha avó ficou sozinha em Paris sem trabalho e tendo que se virar para sobreviver. Ela era mulata e vivia com medo da fúria ariana dos alemães.


A história desse post foi contada para mim pelo meu pai em um raro momento em que ele falou alguma coisa sobre a experiência dele como prisioneiro de guerra. Quando ele namorava a minha mãe, chegou a comentar alguns infortúnios que ela posteriormente trouxe ao meu conhecimento. O que aconteceu com ele não foi tão pavoroso como foi para a grande maioria das pessoas que sofreram nos campos de extermínio, mas foi o suficiente para deixá-lo traumatizado para sempre.

Segundo me parece, o campo em que ele ficou era administrado por militares e não oficiais da SS. Para quem não tem muita idéia da diferença entre uma corporação e outra, os militares foram aqueles que lutaram na guerra e os da SS eram aqueles encarregados de torturar e matar as pessoas confinadas em campos de extermínio ou não. Muitos dos militares não eram nazistas. Só que acho pouco provável que militares treinados para guerrear ficassem confinados em campos tomando conta de soldados, então deviam ser os bestiais SS que ficavam lá.

Tão logo meu pai foi preso, levou muitas surras, mas isso foi terminando aos poucos, visto que ele sempre foi um cara muito simpático e como a necessidade tem cara de cachorro, rapidamente ele aprendeu a falar Alemão. Nessa fase de torturas, ele ingenuamente tentou cortar um pedacinho da sua bota que estava em cima de um calo que estava doendo demais. Um soldado viu e o condenou a pular feito sapo por duas horas. Já imaginaram?

Depois de algum tempo nessa situação, ele ficou encarregado de transportar uma espécie de penico grandão contendo as necessidades de seus algozes. Já estava desiludido da vida e pensou em morrer. Assim, ele cometeu uma grande loucura: fingiu tropeçar e jogou toda a merda em cima de um soldado, mas por incrível que pareça, nada aconteceu com ele.

Em seguida, foi promovido: não mais carregava merda e sim o leite que os soldados tomavam. Isso salvou a sua saúde, uma vez que, quando não era observado, comia a nata que ficava em cima da vasilha. Logo em seguida, teve outra promoção, virou uma espécie de garçom que tinha o direito de comer o resto da comida que ficava nos pratos dos soldados. Isso também foi bom não só para ele, como também para outros prisioneiros que estavam debilitados.

Só que o cerco começou a fechar e os alemães começaram a perder a guerra. Como represália, o campo que era digamos assim, uma espécie de hotel no meio daquela barbárie, acabou virando algo terrível. Um dos castigos era enfileirar os soldados e começar a brincadeira: você morre, você não morre. Podia ser o contrário também: você não morre, você morre. Meu pai virou um expert e em segundos sabia se iria morrer ou não. Ele sempre escapava.

Só que no campo tinha um prisioneiro baiano que veio a se tornar uma espécie de figura folclórica naquele local porque sempre estava de bom humor e não se deixava abater. Por pior que fosse a situação, ele nunca perdia a esperança de sair vivo dali. Um belo dia, todo mundo ficou enfileirado novamente e dessa vez meu pai viu que iria morrer. Só que aconteceu um verdadeiro milagre: o baiano que era baixinho, descontrolou a fila e mais uma vez ele escapou. Um tempo depois a guerra acabou e ele e o baiano conseguiram sobreviver.

Não sei por qual motivo um brasileiro teria ido parar em um campo na Alemanha, visto que os nossos pracinhas lutaram na Itália, mas deve ser alguma coisa do destino que o salvou justamente pelas mãos de alguém que nasceu em um país em que ele iria aportar por acidente uns anos depois, conhecer o grande amor de sua vida e fazer dois filhos. Quando o navio estava meio perdido, meu pai avisou aos passageiros que eles estavam na costa brasileira porque ele reconheceu a nossa bandeira que era a que figurava no café que ele tomava.

As poucas vezes que me lembro desse caso me deixam um pouco nostálgica por não ter tido a oportunidade de conhecer essa pessoa que tão bem fez ao meu pai. Não sei dizer o que o baiano era e muito menos o motivo de ele ter ido parar nesse local. Talvez não fosse soldado, talvez fosse um imigrante, talvez não sei o quê, mas o que marcou o meu pai era a imensa saudade que ele tinha da Bahia, saudade essa tão forte que meu pai que mal conhecia o que era o Brasil, registrou em sua memória afetiva que ele era baiano e não brasileiro. E assim, eu posso dizer que só existo porque um baiano foi parar na Europa e salvou sem querer a vida do meu pai.

Beijocas

Yvonne