Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

Minha foto
Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

Enter your email address:

Delivered by FeedBurner

Gente de Opinião

Seguidores do blogger

Gente que Olha, nem sempre opina...

Arquivo BlogGente

Site Meter eXTReMe Tracker

PESSOAS INESQUECÍVEIS - A ADOLESCENTE ALEMÃ






1979, finalmente eu iria realizar o sonho de toda uma vida: fazer uma viagem à velha Europa e encontrar o meu pai e o meu avô. Lá fui eu toda serelepe, feliz da vida. Tudo correu às mil maravilhas em todos os países que visitei, até que chegou o grande dia de me encontrar com o meu pai em Palma de Mallorca, local onde ele tinha um lindo apartamento de frente para o mar, num bairro nobre situado em uma ilha que é um dos locais mais nobres daquele continente.
Peguei o avião em Madrid e fui para o grande encontro, só que o tiro saiu pela culatra, pois ao abraçá-lo chorando após 13 anos de separação, ele me disse a seguinte frase: "Yvonne, pára com isso, as pessoas estão olhando". Sua esposa passou-lhe o maior sermão, me abraçou toda afetuosa e ele se desculpou. Só que não pegou bem para mim.

Eu que estava bonitinha naquela época, fiquei uma coisa esquisita, a pele ficou cheia de espinhas, o cabelo deixou de ser liso e macio e ficou com um aspecto estranho. Eu me olhava no espelho e via uma pessoa diferente de mim. Tudo isso devido ao baque que tive com aquela "calorosa" recepção. Levou alguns dias para eu voltar ao normal. Mais uma vez o meu cérebro utilizou um velho artifício: simplesmente baniu toda e qualquer lembrança da semana que eu fiquei naquela ilha. Lembro-me vagamente de uma coisa ou outra, mas tudo parece um sonho difícil de ser recordado. As únicas coisas que me marcaram foram as duas gatinhas do meu pai chamadas Nanouche e Catouche, um dia que eu fui à praia e vi um montão de alemães pelados, um outro dia em que fomos a uma loja comprar um colar de pérolas para a minha mãe e só. Não me lembro de monumentos, passeios, apartamento, nada, nada.

No entanto, uma menina de uns 14 anos marcou para sempre a minha pessoa. Ela era uma gracinha: cabelos da cor da Bruna Lombardi, olhos verdes, pele dourada, uma verdadeira tetéia com os olhos muito tristes. Essa garota se apaixonou por um espanhol e seus pais a proibiram de se encontrar com ele. Meu Deus do Céu! O prédio todo sofreu com esse problema porque a música Chiquitita do Abba devia ser o tema de amor daquele romance proibido e toda a vizinhança teve que suportar por não sei quantos dias essa canção tocada da hora que ela acordava até a hora de dormir. O negócio foi tão alucinante que, em pleno mês de julho, teve uma reunião de condomínio extraordinária para tentar resolver esse problema. Ninguém mais agüentava ouvir Chiquitita. Eu já estava querendo ir embora correndo dali (na realidade é porque eu não queria mais ficar com o meu pai). Tomei verdadeiro pavor do Abba. Utilizando uma velha comparação minha, eu tinha a exata sensação de que tomava de uma só tacada 10 latas de leite condensado. E o pior: a Europa inteira ouvia e idolatrava aquele conjunto sueco. Aonde eu ia, eu ouvia essa música, como também outras.

Eis que no dia da reunião, meu pai foi lá com a esposa. Conversa vai, conversa vem e ele indagou ao pai da menina se o tal espanhol tinha algum problema que o desabonasse. Ele esclareceu que não, só não queria que ela ficasse com ele porque mais dia menos dia, ela iria voltar para a Alemanha e, nesse caso, ela iria sofrer muito. Vejam só a lógica desse cara, não vai ser feliz hoje, para não ficar infeliz mais tarde. Todo o prédio pediu que ele reconsiderasse e que deixasse a menina sair, como qualquer outra. O pai acabou concordando e todos viveram felizes para sempre.

Os anos se passaram, voltei a gostar do Abba e, por incrível que possa parecer, todas as vezes que ouço essa música, me lembro da alemãzinha com os seus olhos tristes. Parece mentira, mas sinto saudades de vê-la na janela suspirando pelo "chiquitito" amado. Sempre me pergunto o que teria acontecido com ela. Ela nem de longe pode imaginar que faz parte das lembranças de uma brasileira e que foi a única boa que restou de uma semana muito triste para mim.

Beijocas

Yvonne