Se todos os dias são iguais, torne-se diferente

Yvonne

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Brasileira, ariana nascida no Rio de Janeiro, morando atualmente em Guarapari, mulher, esposa e mãe. Gosto de artes em geral, de ler, de trocar idéias, de praia, de cinema, de tomar cerveja e de dar boas gargalhadas.

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1972, O ANO QUE NUNCA DEVERIA TER EXISTIDO


Existem certos períodos na vida da gente que é preferível esquecer. Eu, graças a Deus, tive muito poucos, mas ainda assim muito marcantes. Dois anos que não deixaram saudades foram 1972 e 1973. Todas as vezes que ouço uma música, vejo um filme ou qualquer outra coisa dessa época, o meu coração se fecha. Sinto um certo desconforto dentro de mim mesma.
Em 1972 fiz 18 anos, tinha acabado o segundo grau (Científico e Técnico de Contabilidade) no ano anterior e optei por não fazer vestibular, já que eu estava na dúvida sobre a carreira que eu iria escolher. Ademais, estava guardando as minhas energias para começar a trabalhar. Só estudava na Aliança Francesa. Para piorar, já não gostava mais do meu namorado e não tinha a menor idéia sobre a maneira que eu iria acabar com aquele relacionamento. Tinha muito medo de perder aquela pessoa que era um amigão e eu pensava que talvez ninguém mais fosse gostar de mim daquele jeito. E com isso fui empurrando com a barriga um namoro que não me dava mais nenhuma alegria. Ele ficava cada dia mais violento, mas comigo era uma dama. No fundo eu sabia que algum dia iria sobrar alguma coisa para mim. Como de fato sobrou.
Tomada de coragem, aproveitando uma traição boba cometida por ele, terminei o namoro. Nosso papo foi civilizado e eu pensei que estivesse tudo tranqüilo. Até que um dia, ele ligou de um orelhão pedindo que eu descesse que ele queria falar comigo. Quando eu disse que iria trocar de roupa, ele me pediu para ir do jeito que eu estava porque a gente iria apenas conversar dentro do carro. Ingenuamente eu desci com a roupa de casa, sem bolsa e sem documento. Ao entrar no carro, percebi que ele estava completamente transtornado e fomos andando sem que eu soubesse para onde. Quando chegamos na Praia de Ipanema, ele começou a me bater no rosto violentamente. Dirigia com a mão esquerda e batia com a direita. Falou que se eu não prometesse voltar a namorá-lo, iria subir a Av. Niemeyer e atiraria o carro lá de cima. Em momento algum eu me descontrolei, permaneci inalterada. Só me lembro que repeti uma frase dentro de minha cabeça como se fosse um mantra: "São Judas Tadeu, não me abandone. São Judas Tadeu, não me abandone ...".
Aproveitando que o sinal fechou na Praia do Leblon na esquina de uma rua que não dava mão para ele virar para a direita, eu abri a porta e saí do carro correndo. Me escondi no jardim de um prédio de sandálias Havaianas e um vestido velho sujo de sangue. Quem levaria a sério uma pessoa nessas condições? Passados uns 5, 10 minutos, tratei de ir embora para casa a pé, o Brasil inteiro olhando para mim e ninguém me deu o menor apoio.
Quando cheguei na Praça Santos Dumont e eu percebi que eu teria que andar toda a Rua Jardim Botânico que sempre foi sem movimento de pessoas, eu finalmente entrei em desespero e sentei no banco da praça, até que um senhor me viu e indagou o que estava se passando. Eu disse que tinha sido assaltada e agredida. Ele chamou um táxi, deu dinheiro ao motorista e pediu para ele me levar para casa. O motorista foi tão gente fina que me deixou na porta do meu apartamento.
Confusão instalada na minha família, uns queriam chamar a polícia, outros queriam matá-lo. Meu avô saiu no outro dia para comprar um revólver (não conseguiu). Meu tio delegado queria trucidá-lo. Meu irmão e primos com planos mirabolantes para cortá-lo em pedaços, jogar no ácido e por aí vai. Minha mãe, que sempre foi uma pessoa frágil, era a única equilibrada e disse que ninguém faria nada, afinal de contas o rapaz sempre foi amigo da família e ele só podia estar muito doente para ter feito isso. Como de fato estava, ele tinha um grave problema de saúde e tinha que tomar um determinado remédio que dava esse perigoso efeito colateral.
Ele, ao chegar em casa completamente maluco, arrebentou tudo o que pôde. O estrago só não foi maior porque ele foi contido pelos 4 irmãos. A família decidiu interná-lo em uma clínica, mas ele foi mais rápido e tentou o suicídio antes.
Começou um outro período pavoroso para mim: o dos telefonemas dele e das saídas sempre acompanhadas de algum parente, mas ainda assim não voltei atrás. Mudei o meu horário da Aliança e fui parar em uma sala que só tinha gente muito legal. Fiz amizade com uma menina que não me recordo mais do seu nome e ela me emprestou um livro sobre as atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial. A leitura desse livro quase me levou ao suicídio também, eu nunca na minha vida poderia imaginar que o ser humano fosse tão perverso. Eu entrei em um processo depressivo.
Minha família, amigos e a família do ex-namorado ficaram muito preocupados comigo e começou uma verdadeira caça a um emprego. Fiz testes para várias empresas de primeira grandeza e tirei excelentes notas em todos eles, mas fiquei reprovada no exame psicotécnico, eu não consegui disfarçar o meu problema emocional e não me foi dada nenhuma chance. Só consegui emprego em um banco de investimentos porque a noiva de um primo distante trabalhava no Departamento Pessoal de lá.
No dia 02 de outubro de 1972 comecei a trabalhar, sabe Deus como. A minha prova de contabilidade foi tão boa que eu fui a primeira moça a entrar no Departamento de Contabilidade daquele banco. Aprendi tudo rápido. Ainda assim, mesmo tendo sido uma boa funcionária, eu continuava desequilibrada e tinha verdadeiras crises de choro em pleno trabalho. Tudo isso acontecendo em uma sala que só tinham homens, todos mais velhos que eu, casados e com uma realidade de vida completamente diferente da minha. Eles foram muito pacientes comigo e eu retribuía trabalhando feito uma mula. Entrava na hora, saía depois da hora e, apesar de ter uma hora e meia de almoço, eu só tirava o tempo necessário para comer, resolver um problema ou outro e voltar logo para o banco. Ainda assim, por duas vezes eu saí para almoçar e não voltei, fui para casa de táxi e fiquei chorando debaixo da saia da minha mãe. Foi um período que eu não coloquei os pés fora de casa nem para ir a casa de um parente (minha família em peso mora no bairro de Botafogo, tudo pertinho).
As crises começaram a melhorar, parei de chorar no trabalho, comecei a rir das piadas que os colegas contavam e procurei me relacionar com pessoas de outras áreas (eu sequer dava um bom dia para alguém), ou seja, fiquei mais sociável, mas ainda assim totalmente fechada para balanço.
No final do ano, por volta do Natal, o ex-namorado ligou para a minha mãe e pediu para ir conversar com ela em um horário que eu não tivesse em casa. Minha mãe concordou em recebê-lo e aí ele teve a oportunidade de pedir desculpas por tudo que ele tinha feito (a tragédia se deu em agosto). Aceitou de bom grado que eu não queria mais nada com ele, mas ainda assim ele estava preocupado comigo, não queria deixar uma péssima impressão. Pediu autorização para ir na casa de todos os meus parentes para pedir desculpas e foi o que ele fez, com humildade e hombridade. Pediu também para voltar a minha casa na tarde do dia 24 para me dar um presente de Natal, minha mãe deixou. Ganhei o livro "Olhai os lírios do campo" e dei um LP do Led Zeppelin, bem rock pesado, nada romântico. Falamos sobre amenidades, desejamos felicidades um ao outro, demos um abraço fraternal e fim de papo. Nunca mais iria ser a mesma coisa. Eu adorava ele como pessoa, mas perdi totalmente a confiança. Voltei a freqüentar a casa dele (eu tenho verdadeira adoração pela família até hoje), mas apenas nos horários que eu sabia que ele não estava. Uma vez a gente se esbarrou e eu fria e distante. No ano seguinte ele se casou e até hoje permanece casado, a esposa dele é um doce e ele teve dois garotos que já são homens. Todo final de ano ele ligava para a minha mãe, era sagrado. Quando ela morreu, ele ligou para o meu irmão e chorou muito, ele gostava dela, mas nós mesmos nunca mais nos vimos.
As coisas começaram a melhorar para mim, mas ainda assim eu achava o mundo totalmente sem graça. Eu, com menos de 19 anos, vivia uma vida de velha, sem sair, sem namorar e sem querer saber de qualquer coisa que significasse alegria.
Todos nós temos fases boas e ruins, temos também alguns fantasmas, uns escondidos, outros não. Tirando os noves fora, eu só tenho a agradecer a Deus, porque ainda acredito que os dias/fases ruins não chegam a impressionar. Dividindo essas histórias com vocês, eu estou aprendendo a lidar com diversos fantasmas. É uma maneira que eu estou encontrando de passar a limpo os fatos marcantes da minha vida. Fiquei na dúvida se publicava algo tão íntimo, quase desisti, mas depois de ter escrito o texto me senti mais leve. Mais um fato que ficou definitivamente lá atrás.
Beijocas
Yvonne